terça-feira, 14 de novembro de 2017

História e Verdade | History and Truth

Não existe área do conhecimento mais maltratada, do ponto de vista científico, do que a história. Isto deve-se ao facto de as correntes esmagadoramente dominantes entre os historiadores e académicos da história negarem a existência de verdades objectivas. São correntes não científicas e mesmo anti-científicas.

No presente artigo abordamos: subjectividade e objectividade no conhecimento histórico; as deformações das correntes historiográficas dominantes; o desprezo académico pela objectividade na história; ques está e quem não está interessado em história objectiva; o condicionamento social do historiador; a consecução de objectividade em história; cuidados a ter pelo cidadão comum.

There is no more abused area of knowledge, from a scientific point of view, than history. This is due to the fact that the overwhelming mainstream trends among historians and scholars of history deny the existence of objective truths. These trends are non-scientific and even anti-scientific.

In the present article we address: subjectivity and objectivity in historical knowledge; the deformations of the mainstream historiographic currents; academic disdain for objectivity in history; who is and who is not interested in objective history; the social conditioning of the historian; the attainment of objectivity in history; recommendations for ordinary people.

Comecemos por definir alguns conceitos. É verdadeiro um juízo de acordo com a realidade. Em geral, não existem verdades absolutas (a não ser trivialidades). A obtenção de juízos verdadeiros envolve processos cognitivos, colectivos e potencialmente infinitos. Ao longo de um dado processo cognitivo obtêm-se verdades relativas, cada vez mais compreensivas da realidade. Diz-se objectivo o conhecimento com valor universal e que é livre de parcialidade. Diz-se subjectivo o conhecimento individual sem valor universal, emotivamente influenciado, logo parcial. Como todo o conhecimento envolve uma relação sujeito-objecto, obter um conhecimento objectivo exige um processo que elimine o melhor possível a parcialidade.

Tudo isto é válido quer para as ciências naturais quer para as ciências sociais. Com uma grande diferença, porém: tendo em conta a natureza do objecto do conhecimento, a parcialidade subjectiva é, em geral, muito reduzida ou nula nas ciências naturais, enquanto nas ciências sociais ela é, obviamente, importante, dado que o sujeito que conhece é um produto de relações sociais.

Na história, e como reacção ao positivismo [1] do séc. XIX que defendia uma história como simples compilação de factos sem ter em conta o condicionamento social do historiador, desenvolveram-se no séc. XX várias correntes subjectivistas: intuicionismo (espiritualismo radical, negação do materialismo: o historiador pode e deve ser parcial; existem tantas histórias quantos os espíritos que «criam» a história); presentismo (não há passado objectivo, há apenas factos criados pelo espírito num presente eternamente variável; toda a história é um produto do espírito que vive no presente); pragmatismo (as nossas concepções sobre o passado baseiam-se apenas em juízos relativos a coisas que podemos observar no presente; cada século reinterpreta o passado de modo a servir os seus próprios fins).

Note-se que todas estas correntes são idealistas, quer por considerarem a verdade objectiva como inatingível (positivismo) quer por negarem a existência de verdades objectivas, considerando todas as verdades como subjectivas (subjectivis-mo). As correntes subjectivistas defendem a existência de uma multiplicidade de histórias, todas igualmente válidas. Resulta, assim, que o historiador deverá aceitar como verdadeiras duas histórias que se contradizem quanto ao mesmo acontecimento histórico. Desta forma, sem critério para distinguir o verdadeiro do falso, a história não é uma ciência.

Após a 2.ª GM ganhou a primazia a corrente pragmatista, primeiros nos EUA e depois na Europa. Eis o que afirmou um dos seus apoiantes, R. G. Collingwood, em 1946: «O pensamento histórico é uma actividade da imaginação […] Cada presente tem o seu próprio passado e com a ajuda da imaginação […] visa-se reconstruir o passado do presente dado, do presente em que se opera o acto de imaginação […]»

O livro do filósofo marxista polaco Adam Schaff, História e Verdade (Editorial Estampa, 2000) fornece uma análise profunda das correntes historiográficas. O livro contém uma citação muito esclarecedora de um historiador pragmatista. Trata-se da alocução presidencial de Conyers Read em 1949 à Associação dos Historiadores Americanos [2]. Intitulada A Responsabilidade Social do Historiador, Read ataca o conceito de verdade objectiva e recomenda aos historiadores a «educação para a democracia», dizendo a certa altura:

«Nessa época [liberalismo do séc. XIX] a neu-tralidade [imparcialidade] foi levada tão longe que deixámos de acreditar [...] nos nossos próprios objectivos. Perante a alternativa que nos puseram Mussolini e Hitler, e ultimamente Estaline, devemos adoptar claramente uma atitude militante se queremos sobreviver. O antídoto para má doutrina é uma doutrina melhor e não um intelecto neutralizado. Deve-mos afirmar os nossos próprios objectivos, definir os nossos próprios ideais, estabelecer os nossos próprios padrões, organizar todas as forças da nossa sociedade para os apoiar. A disciplina é o imperativo fundamental de todo o exército eficaz, quer ele marche debaixo de estrelas e riscas ou da foice e martelo. […] A atitude liberal de neutralidade, o lidar com o desenvolvimento social em termos de compor-tamento desapaixonado, já não chegam. […] A guerra total, quente ou fria, empenha e exige de todos nós a participar nela. O historiador não é menos obrigado a isso do que o físico.»

A mensagem de Conyers Read é clara:

-- Combate à «neutralidade», termo evocador de patriotismo mas cuja verdadeira intenção é o combate à imparcialidade do historiador;

-- Afinal, nem todas as historiografias subjectivistas são igualmente válidas; a que defende o modelo americano é melhor que todas as outras, em particular as provenientes de qualquer «intelecto neutralizado»;

-- A historiografia americana (de facto, de toda a pirâmide imperial americana) tem por missão combater o comunismo.

Neste combate que a versão imperial da historiografia subjectivista deve promover contra o comunismo não é só a «neutralidade» que se deve eliminar. Read vai mais longe, advogando o princípio do controlo social: «é importante que aceitemos e sustentemos um tal controlo: é essencial para salvaguardar o nosso modo de vida.» Segundo Read, o historiador pode con-tinuar a estudar todos os fenómenos; se, porém, depara com algum fenómeno incomodativo, o conselho de Read é claro: «mas devemos entender que nem tudo que se passa no laboratório se presta a ser divulgado pelas esquinas.». Manter, portanto, o grande público na ignorância.

A corrente pragmatista é dominante nas universidades. É ela que in-forma as centenas de milhares de historiadores de todo o mundo, os livros de história que pululam e poluem as livrarias, os jornalistas, os opiniosos, etc.

Numa pesquisa da internet que fizemos em 17 universidades proeminentes, com cursos de história, de vários países [6], só encontrámos uma com disciplinas que incluem abordagens científicas da história. Trata-se da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, que nas disciplinas de Teoria da História I e II recomendam, para além de obras de idealistas, obras de Marx e Engels, Adam Schaff, E. Hobsbawm e M. Vovelle.

Em todas as outras não encontrámos nenhuma disciplina sobre metodologia científica da história; é o caso p. ex. da University of Califórnia at Los Angeles, da New York University, da UCL-University College London, da Sorbonne, etc. Na UCL existe a disciplina Making History descrita como «um projecto de grupo destinado a encorajar o pensamento criativo e original sobre o passado».

Em muitos cursos de história com disciplinas de «metodologia», esta refere-se apenas a métodos técnicos (pesquisa documental e bibliográfica, organização em bibliotecas e arquivos, etc.) [4].  As técnicas podem basear-se em várias ciências, mas não fazem da história uma ciência. Conhecimentos das estrelas, constelações e órbitas dos planetas também não fazem da astrologia uma ciência.

Na Universidade Nova de Lisboa encontrámos a disciplina Methodology for History. O programa não é indicado e a bibliografia inclui um livro  cuja revisão por um historiador norueguês revela o seu carácter pós-modernista (ver abaixo) e subjectivista [5] e um artigo de 2010 sobre ética em história [6] que, a par de recomendações usuais (não ao plágio, transcrição fiel das fontes, etc.), contém uma recomendação típica dos subjectivistas, como iremos ver.

Em algumas universidades a corrente subjectivista é claramente anunciada. Vejamos o que afirma um professor de história da Utah State University em «História e o Que Realmente Aconteceu» [7] no seu curso A Guide To Writing in History and Classics. Diz assim: «A História não é só o que realmente aconteceu, mas uma intersecção complexa de verdades, parcialidades e esperanças». Portanto, não há uma verdade, mas «verdades». Cada historiador terá a sua. Se a intersecção de verdades não for nula, será certamente uma mistela, dado que além de «complexa» envolve «parcialidades e esperanças» dos historiadores da intersecção. Além disso, com o «não é só… mas», são postas em pé de igualdade a realidade objectiva («o que realmente aconteceu») e a mistela.

Ora, é a mistela que logo a seguir é defendida porque segundo o mesmo académico «[a história] é um negócio muito confuso e, como todos os empreendimentos humanos, particularmente susceptível de parcialidade, presunção, orgulho, vaidade e, se não a total e intencional perversão da verdade, pelo menos o ocultamento subconsciente de alguma realidade mais desagradável ou suja».

Sobre isto, há que observar no que concerne «todos os empreendimentos humanos»:

Em primeiro lugar, na busca da verdade objectiva, todos esses defeitos humanos podem ou não existir; para dar um exemplo, nunca ninguém provou sofrer Einstein de parcialidade, presunção, orgulho, vaidade, etc.

Em segundo lugar, e relativamente a parcialidade, presunção, orgulho e vaidade, mesmo com alguns destes defeitos, é possível alcançar uma verdade objectiva ainda que relativa; o orgulho de Newton é bem conhecido e, contudo, ele descobriu a lei da gravidade que é uma verdade.

Em terceiro lugar, a «total e intencional perversão da verdade [etc.]», nunca impediram a ciência como um todo de alcançar verdades. William Summerlin anunciou em 1970 que tinha descoberto um método de transplante de pele sem rejeição, demonstrando isso com o enxerto de pele de rato negro em ratos brancos; em 1974 o método foi denunciado como fraude: Summerlin pintara de negro os pelos do rato branco; apesar da «total e intencional perversão da verdade» de Summerlin a imunologia não perdeu o seu estatuto de ciência e continuou a alcançar verdades.

Uma história científica, baseada em conheci-mento objectivo, rapidamente se desembaraçaria, como outras ciências, dos que pervertem a verdade, intencionalmente ou não. Ora, não é isso que se verifica. A época presente, de reacção dominante, pulula de histórias intencionalmente falsas. De facto, a reescrita da história, falseando verdades já bem estabelecidas e provadas, é a moda de hoje; impregna todos os media.

O grande problema que impede qualificar a corrente dominante da história como ciência não reside nos defeitos humanos. Também não reside, como alguns julgam, no facto de na história não se poderem repetir experiências. A evolução das espécies também não se pode repetir e, contudo, a paleontologia é uma ciência.

É certo que a relação sujeito-objecto introduz parcialidades no processo cognitivo que, como dissemos acima, são especialmente de considerar nas ciências sociais. Mas a questão central da subjectividade não são os defeitos humanos nem, como defendem outros subjectivistas, nomeada-mente os autores do artigo sobre ética acima citado, «a era e cultura em que se nasceu e se foi criado, a educação, e as expectativas das comunidades a que se pertence».

Sim, os defeitos humanos, a «era e cultura, etc.», podem influenciar o sujeito no acto cognitivo. A influência destes factores é facilmente ultrapas-sável no conhecimento histórico tal como o é nas ciências naturais. Mas já não é facilmente ultrapassável a influência subjectiva central no acto cognitivo da história: a que provém do condicionamento social do sujeito; isto é, a classe social do sujeito, o factor que lhe faz tomar «espírito de partido». Como disse Marx em Contributo para a Crítica da Economia Política: «Não é a consciência que determina a existência social, mas a existência social que determina a consciência». Este factor central é sempre ocultado pelos subjectivistas.

Contrariamente aos subjectivistas, os marxistas defendem a capacidade humana de atingir um conhecimento objectivo não só da natureza, mas também das sociedades. Armados com uma teoria científica das sociedades humanas, assente em definições claras e leis sobre a realidade objectiva, o  marxista reconhece que as relações de produção e particularmente as relações de propriedade decidem a divisão da sociedade em classes, as quais defendem interesses específicos que agem sobre as atitudes cognitivas dos homens. Como os interesses das classes são diferentes e contraditórios, a sua influência sobre as atitudes cognitivas produz resultados diferentes.

Quando se fala em classe dominante deve ter-se em conta que o domínio não é só económico. A necessidade de preservar esse domínio e privilégios inerentes leva necessariamente a que a ideologia da classe dominante seja imposta como a ideologia dominante de toda a sociedade.

No capitalismo, os elementos mais conscientes da classe exploradora (a burguesia) estão vitalmente interessados em manter ocultos os mecanismos da exploração, em perpetuar uma ordem social que já não suporta progresso social, em difamar as experiências passadas de construção de uma nova ordem social. Sustentam, por isso, uma ideologia assente em múltiplos e falsos juízos do passado, que apoie a conservação da ordem social existente e a sua inevitabilidade. A historiografia que permite estes objectivos é necessariamente subjectivista e, como tal, anti-científica.

Os elementos mais conscientes da classe explorada (o proletariado) e dos seus aliados estão vitalmente interessados em compreender os mecanismos da exploração, em aprender do passado as formas de luta contra a exploração, a experiência revolucionária, a construção da ordem social rumo à sociedade sem classes, os erros cometidos. Estão, portanto, vitalmente interessados em extrair juízos verdadeiros do passado, da história. Se o não fizessem, se não se importassem em usar falsos juízos do passado, estariam a ir contra os seus interesses. A atitude que tomam é, portanto, uma atitude científica, que irá sempre seguir um processo de busca de verdades objectivas com base na análise marxista, que defende precisamente não só a objectividade do conhecimento como a construção revolucionária do futuro pelo proletariado .

Em antes de prosseguirmos, convirá determo-nos brevemente numa enorme perversão do marxismo. Trata-se do chamado pós-modernismo. Um precursor desta corrente foi o sociólogo húngaro Karl Manheim que, partindo do conceito marxista de condicionamento social do sujeito, defendeu a seguinte tese (1952): todas as opiniões relativas às realidades sociais são ideologias; dado que cada ideologia depende de (é relativa a) uma dada situação social, há então tantas verdades quantas as «situações sociais». Cai-se assim no relativismo da verdade histórica depender da situação social, sem possibilidade de atingir uma verdade objectiva, fundamento do conhecimento científico. Isto é, o pós-modernismo é um «sub-jectivismo social»; sofre dos mesmos defeitos do subjectivismo tout court. Também encontramos nele múltiplas verdades e verdades contraditórias igualmente válidas.

Existem historiadores que defendem a visão pós-modernista da história. Num blog de um historiador encontrámos a seguinte afirmação tipicamente pós-modernista: «A ciência é política. Não se escapa a isso.» Logo, para este historiador, a gravidade funciona de forma diferente conforme é um burguês ou um proletário que leva com a proverbial maçã na cabeça; certamente caindo com diferentes leis da gravidade. O pós-modernismo já foi completamente desmascarado [8] para que percamos tempo com isto. Note-se que a afirmação «A ciência é política» serve de facto como substituto da afirmação «A política [qualquer política] é uma ciência». Hoje em dia qualquer disparate é qualificado de ciência para lhe dar a dignidade que não tem. O autor do blog logo a seguir revela a sua fé relativista quando diz «A validade histórica baseia-se na interpretação do historiador dos textos escritos existentes». Subjectivismo e pós-modernismo vão de braço dado.

O condicionamento social do historiador leva-o frequentemente, no processo de escrever a história (na selecção de factos, na interpretação e compreensão das motivações dos homens, etc.), a introduzir uma subjectividade que deforma o conhecimento, por causa de factores tais como o interesse, a parcialidade, a animosidade contra alguém ou contra certos grupos sociais. Estes são factores induzidos por classe, e não os defeitos morais humanos, a "era e cultura, [etc.]" dos subjectivistas, que vimos acima. Para atingir objectividade o historiador terá de seguir um conjunto de práticas que extrapolam as usadas nas ciências naturais [9]:

-- Considerar uma hipótese de trabalho como provisória até se ter coligido e estudado cuidadosamente toda a evidência relevante;
-- Empenhar-se arduamente na colecção e estudo de toda a evidência relevante;
-- Considerar com visão crítica toda a evidência e fontes;
-- Questionar as nossas ideias preconcebidas;
-- Ser especialmente céptico quanto a evidência que tende a apoiar as nossas ideias preconcebidas;
-- Compensar as nossas parcialidades assegurando-nos que prestámos atenção diligente e mesmo generosa à evidência e teorias que tendem a colocar dúvidas sobre as nossas ideias preconcebidas.

Do ponto de vista da objectividade histórica, a melhor posição inicial contra deformações subjectivistas e pós-modernistas, pelas razões já apontadas, é adoptar os interesses de classe do proletariado, as posições da análise marxista. O condicionamento pelos interesses do proletariado não introduz as deformações subjectivas conservadoras; subentende, pelo contrário, uma atitude aberta ao progresso social e à mudança; logo, uma atitude que desenvolve todos os esforços possíveis para romper com o deformado conhecimento conservador e atingir verdades objectivas cada vez mais próximas de «o que realmente aconteceu». Isto não quer dizer, obviamente, que os marxistas não cometam erros. Nenhum caminho científico é isento de erros.

Desviemos agora a nossa atenção dos historia-dores e concentremo-nos nas dificuldades do cidadão não historiador que pretende saber «o que realmente aconteceu». Que cuidados pode ele tomar contra deformações subjectivistas ou pós-modernistas, actualmente e cada vez mais corres-pondendo a «perversão intencional da verdade»?
Pensamos que os seguintes cuidados são essenciais:

1 - Desconfie de tudo o que os media dominantes dizem sobre história recente. Eles são financiados directa ou indirectamente pelo grande capital. Tocam a música que os patrões ordenam. Quem não obedece é despedido. Mentem sem escrúpulos para defender o capital, o imperialismo, e para combater o marxismo e o socialismo.

2 - Desconfie especialmente quando os media abordam a história de lutas sociais, lutas e sublevações anti-imperialistas ou se propõem «esclarecer» a história de revoluções, nomeda-mente socialistas, e sobre países socialistas. Aí, o «esclarecimento» é de certeza grossa mentira.
Um exemplo: o JN do passado dia 7 de Novembro anunciou uma série de artigos sobre os 100 anos da Revolução de Outubro; nesse anúncio, diz: «Lenine foi empurrado, pelos acontecimentos, para a via revolucionária mais radical na linha de Trotsky e Rosa Luxemburgo». Isto é totalmente falso: Trotsky e Rosa Luxemburgo nem sonhavam com a «via revolucionária mais radical» na Rússia quando Lenine propôs as suas famosas Teses de Abril que inspiraram a revolução. A frase contém outras falsidades e distorções como o «empurrado pelos acontecimentos», a «via mais radical», etc., cujo objectivo é rebaixar Lenine, a figura central da revolução e por essa razão especialmente incómoda para a burguesia.

3 – Desconfie também de documentários e filmes sobre esses temas feitos por grandes empresas «ocidentais» que dominam o mercado de lazer. Pode-se rejeitar como mentiras e propaganda imperialista os documentários nesses temas do Canal História.

4 - Nos blogs da net e na wikipedia há de tudo, do bom ao mau. Geralmente aí o espírito de partido e a existência ou não de preocupações de objectividade dos autores é mais transparente que nos media.

5 - O primeiro cuidado a ter antes de ler um livro de história é inquirir sobre o autor (p. ex., através da net). Que interesses de classe defende? Está o historiador ou a sua casa editorial ligada a instituições ao serviço do capitalismo, do imperialismo? Qual a crítica que tem tido a sua obra e que sector social mais a elogia? O prefácio ou a introdução revelam uma abordagem subjectivista ou pós-modernista? Ou, pelo contrário, marxista?

A resposta a estas perguntas nem sempre é fácil. Um exemplo. O historiador Robert Conquest escreveu o livro The Great Terror onde traçou um quadro da URSS de Estaline como uma câmara de horrores. O livro foi aclamado no ocidente e inspirou muitos outros no mesmo diapasão. O impacto foi de tal ordem que mesmo muitos marxistas ficaram abalados. Veio-se mais tarde a saber que Conquest trabalhou até 1956 para os serviços secretos britânicos na secção Information Research Department (IRD) (originalmente Communist Information Bureau) cuja missão era «combater a influência comunista em todo o mundo implantando histórias falsificadas entre políticos, jornalistas e outros em posição de influenciar a opinião pública». A obra de Conquest foi publicada pela Praeger Press, uma editora ligada à CIA. Por serviços prestados como agente da CIA Conquest foi condecorado por G.W. Bush com a «Medalha da Liberdade» em 2005. Só em finais dos anos 70 vários historiado-res não comunistas com preocupações de objecti-vidade [10] desmascararam aberta e detalhada-mente, com base em evidências comprovadas, as invenções e falsidades de Conquest.

Como regra, leva muito menos tempo a fabricar uma falsidade do que a provar que é falsa.

6 - Deve-se também analisar as notas de rodapé e as referências bibliográficas. Frequentemente, os historiadores subjectivistas não vão de facto às fontes ou a testemunhas presenciais dos factos que mencionam. Limitam-se a escolher um grande número de narrativas e testemunhos em segunda mão que sustentam a tese que lhes convém, fazendo parecer que há um consenso.

7 - Em geral, a evidência material proporcionada por objectos ou documentos oficiais devidamente autenticados é mais credível – ou até decisiva – do que declarações testemunhais (principalmente se recolhidas sem controlo oficial e documentado) ou narrativas após os eventos em causa. Neste aspecto, o apuramento da verdade em história tem semelhanças com a investigação criminal.
Um exemplo. Até recentemente os EUA negaram o seu envolvimento no massacre de centenas de milhares de comunistas na Indonésia durante o golpe do exército indonésio que colocou a ditadura de Suharto no poder. Agora, os ficheiros da embaixada dos EUA em Jakarta libertados no passado Outubro (depois de 52 anos!) confirmam o envolvimento da CIA.

8 - Devemos ser especialmente cépticos quando a recolha de evidências e testemunhos é feita por alguém expressamente seleccionado e financiado por personalidades e instituições do grande capital (magnates dos media, serviços secretos, etc.) para fazer essa recolha.
Um exemplo. A confabulação da fraude do «holodomor» começou com a imprensa nazi em 1933 mas impôs-se no Ocidente depois da série de artigos de Thomas Walker em 1935 para a imprensa do magnata W.R. Hearst (Chicago American and New York Evening Journal). Walker passou algum tempo na URSS mas nunca esteve na Ucrânia! Os seus artigos serviram Hearst, Henry Ford e outros que queriam enlamear a URSS e mantê-la fora da Liga das Nações.

9 - Se um historiador descreve como verdadeiro um facto que é contra o seu interesse de «partido», então, com alta probabilidade, esse facto é objectivamente verdadeiro [11].
Como exemplo, consideremos a questão do «bloco de oposicionistas» clandestino nos anos 30 na URSS, que incluía direitistas e trotskistas, e motivou os processos de Moscovo de 1937 e 1938. Durante muitos anos Trotsky negou a existência de tal «bloco», dizendo ser uma fabricação de Estaline. Mas em 1980 foi permitido ao principal historiador trotskista da época, Pierre Broué, consultar o Arquivo Trotsky na Universidade de Havard e confirmar que o «bloco de oposicionistas» tinha efectivamente existido. (Actualmente, com mais evidência entretanto recolhida, já ninguém contesta o facto.)

10 - Devemos ser especialmente cautelosos quanto a teses «extraordinárias» que contrariam  um enorme volume de verdades relativas que já tinham sido provadas. De uma forma geral, em ciência, «afirmações extraordinárias necessitam de provas extraordinárias». Hoje em dia somos constantemente bombardeados com teses «históricas» que procuram rever num sentido reaccionário verdades já bem estabelecidas e provadas, sem qualquer fundamento ou novas evidências, já para não falar de « provas extraordinárias».
Nem a Revolução Francesa escapa a essa revisão; alguns historiadores (?) descobriram agora que não foi uma revolução burguesa!
Let us first define some concepts. A given statement is true if it accords to reality. In general, there are no absolute truths (other than trivialities). The attainment of true statements involves collective and potentially infinite cognitive processes. Throughout a given cognitive process one obtains relative truths, each time more comprehensive of reality. Knowledge is said to be objective, when it has a universal value and is free from partiality (bias). Individual knowledge without universal value is said to be subjective, emotionally influenced, and biased. Since all knowledge involves a subject-object relationship, achieving objective knowledge requires a process that eliminates partiality as best as possible.

All this holds true for both the natural sciences and the social sciences. With a great difference, however: considering the nature of the object of knowledge, subjective partiality is generally very small or null in the natural sciences, while it is obviously important in the social sciences, since the subject of the cognitive relation is a product of social relations.

In history, and as a reaction to nineteenth-century positivism [1], which defended history as a simple compilation of facts without taking into account the social conditioning of the historian, several subjectivist currents developed in the twentieth century: intuitionism (radical spiritualism, denial of materialism: the historian can and should be partial; there are as many histories as the spirits who "create" history); presentism (there is no objective past, there are only facts created by the spirit in an eternally variable present; all history is a product of a spirit living in the present); pragmatism (our conceptions of the past are based only on judgments concerning things we can observe in the present; each century reinterprets the past in a way that serves its own ends).

Note that all these currents are idealistic, either because they consider the objective truth to be unattainable (positivism) or because they deny the existence of objective truths, they consider all truths to be subjective (subjectivism). The subjectivist trends defend the existence of a multiplicity of histories, all equally valid. It then follows that the historian must accept as true two histories that contradict each other on the same historical event. In this way, without a criterion to distinguish true from false, history is not a science.

After the 2nd World War the pragmatist trend gained the primacy, first in the US and later in Europe. Here is what one of its supporters, R. G. Collingwood, stated in 1946: "Historical thought is an activity of the imagination. [...] Every present has its own past and with the help of the imagination […] one intends to reconstruct the past of the given present, of the present in which the act of imagination takes place [...]” (back translated from the Portuguese version, our square brackets).

The book by the Polish Marxist philosopher Adam Schaff, History and Truth (Pergamon, 2014) provides a deep analysis of the historiographical trends. The book contains a very enlightening quotation from a pragmatist historian. This is Conyers Read's presidential address in 1949 to the Association of American Historians [2]. The address, entitled “The Social Responsibility of the Historian”, attacks the concept of objective truth and recommends historians the "education for democracy", saying at one point (original text, our square brackets):

“In that age [19th century liberalism] neutrality [unbiasedness] went so far that we ceased to believe […] in our own objectives. Confronted by such alternatives as Mussolini and Hitler and last of all Stalin have imposed, we must clearly assume a militant attitude if we are to survive. The antidote to bad doctrine is better doctrine, not neutralized intelligence. We must assert our own objectives, define our own ideals, establish our own standards and organize all the forces of our society in support of them. Discipline is the essential prerequisite of every effective army whether it march under the Stars and Stripes or under the Hammer and Sickle. […] The liberal neutral attitude, the approach to social evolution in terms of dispassionate behaviorism will no longer suffice. […] Total war, whether it be hot or cold, enlists everyone and calls upon everyone to assume his part. The historian is no freer from this obligation than the physicist.”

Conyers Read's message is clear:

-- To fight against “neutrality”, a term evoking patriotism, but whose true meaning is to fight the impartiality of the historian;

-- After all, not all subjectivist historiographies are equally valid; the one defending the American model is better than all the other ones, particularly those coming from any "neutralized intelligence";

-- The purpose of American historiography (indeed, of the entire American imperial pyramid) is to fight communism.

In this fight, which the imperial version of subjectivist historiography must promote against communism, it is not only "neutrality" that must be eliminated. Conyers Read goes further, advocating the principle of social control: "The important thing is that we shall accept and endorse such controls as are essential for the preservation of our way of life." According to Read, the historian can keep on studying all phenomena; if, however, he encounters any annoying phenomena, Read's advice is clear: "But we must realize that not everything which takes place in the laboratory is appropriate for broadcasting at the street corners." In other words, keep the public at large in their ignorance.

The pragmatist current is dominant in the universities. It’s this current who in-forms the hundreds of thousands of historians from all over the world, the history books that swarm and pollute bookstores, journalists, opinion-makers and so on.

In a internet survey of 17 prominent universities, with courses in history, from several countries [6], we have only found one with courses which include scientific approaches to history. It is the Federal University of Santa Catarina, Brazil, which in the courses of Theory of History I and II recommend, besides works of idealists, works by Marx and Engels, Adam Schaff, E. Hobsbawm and M. Vovelle.

In all other universities we did not find any course on the scientific methodology of history; this is the case e.g. of the University of California at Los Angeles, of the New York University, of the University College London (UCL), and of the Sorbonne. The UCL has a Making History course described as “a group project designed to encourage creative, lateral thinking about the past”.

In many history studies with courses on "methodology", this refers only to technical methods (document and bibliographic research, organization of libraries and archives, and so on) [4]. To be sure, techniques can be based on various sciences, but they do not make history a science. Knowledge of the stars, constellations and orbits of the planets also do not make astrology a science.

At the Universidade Nova de Lisboa we found the course Methodology for History. The program is not indicated and the bibliography includes a book whose review by a Norwegian historian reveals its postmodernist (see below) and subjectivist character [5], and a 2010 article on ethics in history [6] which, alongside usual recommendations (no to plagiarism, faithful transcription of sources, etc.), contains a recommendation typical of subjectivists, as we shall see.

In some universities the subjectivist current is very clearly announced. Let us take a look at what a history professor at Utah State University asserts in the text "History and What Really Happened" [7]  presenting his course A Guide To Writing in History and Classics. He says the following: "History is not just what really-happened-in-the-past, but a complex intersection of truths, bias and hopes." According to this, there is no single truth, but "truths". Each historian will have his/her own truth. If the intersection of truths is not empty, it will certainly be a big mix, since in addition to being "complex" it involves "biases and hopes" of the intersecting historians. Moreover, with his "it is not just ... but", the objective reality ("what really happened") and the big mix are put on equal footing.

Nevertheless, it is really the big mix that the same scholar immediately defends because according to him "[history] is a very messy business and, like all human enterprises, particularly susceptible of bias, self-righteousness, pride, vanity and, if not outright and intentional perversion of the truth, at least the subconscious obfuscation of some grimmer and grimier reality."

On this, and as regards “all human enterprises”, one should note:

In the first place, in the search for objective truths, all those human defects may or may not be present; just to give an example, no one ever proved that Einstein suffered of bias, self-righteousness, pride, vanity, etc.

Secondly, and with respect to bias, self-righteousness, pride and vanity, even with some of these defects it is possible to attain an objective truth, albeit relative; Newton's pride is well known, and yet he has discovered the law of gravity which is a truth.

Thirdly, the "outright and intentional perversion of the truth [etc.]" never prevented science as a whole from attaining truths. William Summerlin announced in 1970 that he had discovered a method of skin transplant without rejection, demonstrating the discovery with grafts of black mouse skin onto white mice; the transplanting method was denounced as fraud in 1974: Summerlin had painted the white mice hair with black ink; despite the "outright and intentional perversion of truth" of Summerlin, immunology did not lose its status as a science and continued to attain truths.

A scientific history, based on objective knowledge, would quickly get rid, like other sciences, of those who pervert the truth, intentionally or not. That this is not the case is clearly observed. The present epoch, of dominant political reaction, is swarmed by intentionally false stories. Actually, even the rewriting of history, with the falsification of since long well established and proven truths, is the trend of today and pervades all media.

The main problem impeding to qualify mainstream history as a science lies not in human defects. Nor does it lie, as some argue, in the fact that in history one cannot repeat experiments. The evolution of species cannot be repeated either, and yet paleontology is a science.

It is true that the subject-object relationship introduces biases in the cognitive process which, as mentioned above, are to be especially considered in the social sciences. But the central issue of the subjectivity lies not in the human defects nor, as subjectivists also argue -- namely the authors of the article on ethics cited above -- on “era and culture in which you were born and raised, education, and the expectations of the communities to which you belong.”

Yes, human defects, "era and culture," and so on, can influence the subject in the cognitive act. The influence of these factors is easily overcome in historical knowledge as it also is in the natural sciences. But the central subjective influence in the cognitive act of history is no longer easily overcome: that which comes from the social conditioning of the subject; that is, the social class of the subject, the factor that makes him take "party spirit". As Marx put it in A Contribution to the Critique of Political Economy: "It is not the consciousness of men that determines their existence, but their social existence that determines their consciousness." This central factor is always concealed by the subjectivists.

Contrary to the subjectivists, Marxists defend the human capacity of attaining objective knowledge not only of nature but also of societies. Armed with a scientific theory of human societies, which is grounded on clear definitions and laws on the objective reality, Marxists recognize that the relations of production and particularly the relations of property decide the division of society into classes; these defend specific interests that act on the cognitive attitudes of men. Since the interests of classes are different and contradictory their influence on cognitive attitudes produce different results.

When talking about the dominant class, it must be taken into account that the domination is not only economic. The need to preserve its domination and inherent privileges necessarily leads to the ideology of the dominant class being imposed to the whole society as the dominant ideology.

In capitalism, the most conscious elements of the exploiting class (the bourgeoisie) are vitally interested in keeping the mechanisms of exploitation obscured, in perpetuating a social order that no longer supports social progress, in slandering past experiences of building a new social order. They, therefore, support an ideology based on multiple and false judgments about the past, which sustains the preservation of the existing social order and claims its inevitability. The historiography allowing the attainment of these objectives is necessarily subjectivist and, as such, anti-scientific.

The most conscious elements of the exploited class (the proletariat) and its allies are vitally interested in understanding the mechanisms of exploitation, of learning from the past the forms of struggle against exploitation, of revolutionary experience, of the building of a social order towards a society without classes, and learning from previous mistakes. They are, therefore, vitally interested in extracting true assessments from the past, from history. If they did not do that, if they did not mind using false judgments from the past, they would be standing against their interests. The attitude they take is, therefore, a scientific attitude, which will always follow a process of seeking objective truths based on the Marxist analysis, which precisely defends both the objectivity of knowledge and the revolutionary building of the future by the proletariat.

Before we go any further, we must briefly dwell on an enormous perversion of Marxism. This is the so-called postmodernism. A precursor of this trend was the Hungarian sociologist Karl Manheim who, starting from the Marxist concept of social conditioning of the subject, defended the following thesis (1952): all opinions concerning social realities are ideologies; given that each ideology depends on (is relative to) a given social situation, there are then as many truths as there are “social situations”. One thus falls in the relativism of the historical truth, which depends on the social situation, without possibility of reaching an objective truth, the foundation of any scientific knowledge. That is, postmodernism is a "social subjectivism" and suffers from the same defects of subjectivism tout court. We also find in postmodernism multiple truths and equally valid contradictory truths.

There are historians who defend the postmodernist view of history. We found in a historian's blog the following and typically postmodernist statement: "Science is political. There are no two ways about it." Therefore, for this historian, gravity works differently depending on whether it is a bourgeois or a proletarian who gets the proverbial falling apple upon the head; and certainly falling with different laws of gravity. Postmodernism has already been completely debunked [8] so that we lose time with it. It should be noted that the statement “Science is political” serves in fact as a surrogate of the statement “Politics [of any kind] is a science”. Nowadays, any nonsense is qualified as science to lend it the dignity it does not have. The author of the blog reveals his relativistic belief in the following text when he states "Historical validity is based in the historian’s interpretation of extant written texts." Subjectivism and postmodernism go hand in hand.

The social conditioning of the historian often leads him, in the process of writing history (in the selection of facts, in the interpretation and understanding of the motives of men, etc.), to introduce a subjectivity that deforms knowledge, because of factors such as interest, partiality, animosity against someone and against certain social groups. These are class-induced factors, not the moral human defects, "era and culture, [etc.]" of the subjectivists, mentioned above. For a historian to attain objectivity a set of practices  extrapolating those used in the natural sciences, must be observed [9]:

-- To regard one’s working hypothesis as provisional until one has gathered and carefully studied all the relevant evidence;
-- To engage in the hard work of collecting and studying all the relevant evidence;
-- To regard all evidence and sources with a critical eye;
-- To question one’s own preconceived ideas;
-- To be especially skeptical of evidence that tends to support one’s own preconceived ideas;
-- To compensate for one’s own biases by making sure to give diligent, even generous attention to evidence and theories that tend to cast doubt on one’s own preconceived ideas.

From the point of view of historical objectivity, the best initial position against subjectivist or postmodernist deformations, for the reasons mentioned above, is to adopt the class interests of the proletariat, the positions of Marxist analysis. The conditioning by the interests of the proletariat does not introduce the conservative subjective deformations; on the contrary, it implies an attitude open to social progress and change; hence, an attitude that develops every possible effort to break with deformed conservative knowledge and to achieve objective truths ever closer to "what really happened." This does not mean, of course, that Marxists do not make mistakes. No scientific path is error-free.

We now divert our attention from historians and concentrate on the difficulties of the non-historian citizen who wants to know “what really happened”. What precautions can one take against subjectivist and postmodernist deformations, which are now and ever more often associated with the “intentional perversion of truth”?
We believe that the following precautions are essential:

1 – Be wary of everything that the mainstream media say about history. They are financed directly or indirectly by big capital. They play the music that the bosses order for. Those who do not comply get fired. They lie unscrupulously to defend capitalism, imperialism, and to fight against Marxism and socialism.

2 - Be especially mistrustful when the media lecture on the history of social struggles, anti-imperialist struggles and uprisings, and set out to "elucidate" us about the history of revolutions, namely socialist revolutions, and about socialist countries. The "elucidation" will then certainly be a gross lie.
An example. The Jornal de Notícias, a Portuguese newspaper with large circulation, announced on past 7 November a series of articles on the 100th anniversary of the October Revolution. It stated as follows in the announcement: "Lenin was pushed by events to the most radical revolutionary path along the lines of Trotsky and Rosa Luxemburg." This is totally false: Trotsky and Rosa Luxemburg did not even dream of the "most radical revolutionary path" in Russia when Lenin proposed his famous April Theses that inspired the revolution. The sentence contains other falsehoods and distortions like "pushed by events", "most radical path", etc., whose aim is to belittle Lenin, the central figure of the revolution and for this reason especially annoying to the bourgeoisie.

3- Be also wary of documentaries and films on those topics made by large “West” enterprises which dominate the market of leisure time. You can reject as lies and imperialist propaganda documentaries on those topics from the History Channel.

4 - In the web blogs and in the wikipedia one finds everything, from the good to the bad. Usually the party spirit and the existence or not of objectivity concerns of the authors is more transparent than in the media.

5 - The first caution to be taken before reading a history book is to inquire about the author (e.g., via the internet). What class interests does he/she hold? Is the historian or his/her publishing house linked to institutions at the service of capitalism, of imperialism? What reviews has his/her work received and which social sector lends him/her most praise? Does the preface or the introduction reveal a subjectivist or postmodern approach? Or, conversely, Marxist?

The answer to these questions is not always easy. An example. The historian Robert Conquest wrote The Great Terror where he drew a picture of Stalin's USSR as a chamber of horrors. The book was acclaimed in the West and inspired many others in the same tuning. The impact was such that even many Marxists were shaken. It was later discovered that Conquest worked until 1956 for the British secret services in the Information Research Department (IRD) (originally called the Communist Information Bureau) whose mission was "to combat communist influence throughout the world by planting fabricated stories among politicians, journalists and others in a position to influence public opinion." Conquest's work was published by Praeger Press, a publisher affiliated with the CIA. For his services as CIA agent, Conquest was decorated by G.W. Bush in 2005 with the "Medal of Freedom". It was not until the late 1970s that a number of non-communist historians with concerns of objectivity [10] uncovered openly and thoroughly, on the basis of proven evidence, Conquest's inventions and falsities.

As a rule, it takes a much shorter time to fabricate a falsehood than it takes to prove that it is false.

6 - One should also analyze footnotes and bibliographical references. Often, subjectivist historians do not actually go to sources or witnesses in the face of the facts they mention. They limit themselves to choosing a large number of second-hand narratives and testimonies that support the thesis that suits them, making it appear that there is a consensus.

7 - In general, material evidence provided by duly authenticated objects or documents is more credible -- or even decisive -- than witness accounts (especially if collected without official and documented control) or narratives after the events in question. In this respect, the verification of truth in history bears similarities to criminal investigation.
An example. Until recently the US denied its involvement in the massacre of hundreds of thousands of Indonesian communists in 1965, during the Indonesian army coup which set the dictatorship of Suharto in power. Now the files from the US embassy in Jakarta, released last October (52 years later!), confirm the CIA involvement.

8 - We should be particularly skeptical when evidence and testimonies are collected by someone who is expressly selected and funded by personalities and institutions of big capital (media moguls, secret services, etc.) to collect such evidence and testimonies.
An example. The fabrication of the “holodomor” hoax started with the Nazi press in 1933 but was imposed in the West after the 1935 series of articles of Thomas Walker in the W. R. Hearst press (Chicago American and New York Evening Journal). Though Walker spent some time in the USSR he never was in Ukraine! His articles served Hearst, Henry Ford, and others, who wanted to smear the USSR and keep it out of the League of Nations.

9 - If a historian describes as true a fact that is against his "party" interest, then, with high probability, this fact is objectively true [11].
As an example, let us consider the question of the clandestine "bloc of oppositionists" in the 1930s in the USSR, which included rightists and Trotskyites, and motivated the Moscow trials of 1937 and 1938. For many years Trotsky denied the existence of such a "block", saying that it was a fabrication from Stalin. But in 1980 the leading Trotskyite historian of the time, Pierre Broué, was allowed to consult the Trotsky Archive at the University of Harvard and confirmed that the "block of oppositionists" had indeed existed. (Today, with more evidence meanwhile collected, no one disputes the fact.)

10 - One must be especially wary of "extraordinary" theses that run counter to an enormous volume of relative truths that have already been proven. Generally speaking, in science, “extraordinary claims require extraordinary proofs”'. Nowadays we are constantly bombarded with "historical" theses that seek to revise, in a reactionary sense, truths that have already been well established and proven, without any grounds or new evidence, not to mention "extraordinary proofs".
Even the French Revolution does not escape this revision; some historians (?) have now discovered that it was not a bourgeois revolution! 


Notas e Referências | Notes and References

[1] O positivismo (Mach, Comte, etc.) considera que o mundo material não pode ser conhecido, dado só existirem as percepções sensoriais do sujeito; assim, a «ciência positiva» não pode ir além de uma compilação de observações (experimentais ou não).
Positivism (Mach, Comte, etc.) considers that the material world cannot be known, since only sensory perceptions of the subject exist; thus "positive science" cannot go beyond a compilation of observations (experimental or otherwise).

[2] The Social Responsibilities of the Historian, The American Historical Review, vol. 55, no. 2, 1950.

[3] USA (3): UCLA, NYU, USU; GBR (3): UCL, Univ. Oxford, Univ. Cambridge; IRL (1): DCU; FRA (2): Univ. Toulouse, Sorbonne; BEL (1): Univ. Ghent; NLD (1): Univ. Leiden; PRT (2): UP, UNL; ESP (2): UCM, UPV; BRA (2): UFSC, USP.

[4] É o caso da disciplina «Métodos e Técnicas de Investigação Histórica» do curso da Universidade do Porto. This is the case of “Methods and Techniques of Historical Research” taught at the Oporto University.

[5] From Reliable Sources: An Introduction to Historical Methods. By Martha Howell and Walter Prevenier, Cornell University Press, 2001.
O historiador Trygve R. Tholfsen denuncia a defesa pelos autores do livro da tese pós-modernista, uma tese de «múltiplas histórias», e as afirmações subjectivistas: «os autores juntaram uma toada pós-moderna, salientando ao longo do livro que eles não partilham com os seus predecessores as crenças “impossivelmente ingénuas” acerca de verdade e objectividade.»
The historian Trygve R. Tholfsen exposes the defense by the authors of the book of the postmodernist thesis, a thesis of "multiple histories", and their subjectivist statements: “the authors have added a postmodern spin, emphasizing throughout the book that they do not share their predecessors' “impossibly naïve" beliefs about truth and objectivity.”

[6] Ethics for Historians: The Perspective of One Undergraduate Class, Catherine Denial (with contributions by Devin Harvie), Association of American Historians, January 2010.
.
[7] O historiador de Utah usa aqui de forma irónica a frase “o que realmente aconteceu” usada pelo historiador positivista da séc. XIX Leopold von Ranke: wie es eigentlich gewesen.
The Utah historian uses here in an ironic way the sentence “what really happened” used by Leopold von Ranke, a positivist historian of the 19th century: wie es eigentlich gewesen.

 [8] Um excelente livro que desmascara totalmente o pós-modernismo é: Alan Sokal, Jean Bricmont, Imposturas Intelectuais, Gradiva, 1999.
An excellent book that completely debunks postmodernism is: Alan Sokal, Jean Bricmont, Fashionable Nonsense: Postmodern Intellectuals' Abuse of Science, Picador, 1999.

[9] Este conjunto de práticas aparece em | This set of practices is mentioned in: Grover Furr, Vladimir L. Bobrov, Stephen Cohen’s Biography of Bukharin: A Study in the Falsehood of Khrushchev-Era “Revelations”, Cultural Logic, 2010.

[10] São de destacar neste tópico os historiadores americanos | Worth noting on this topic are the American historians Arch Getty, Robert W Thurston, Geofrey Roberts.

[11] Como este resultado é muitas vezes divulgado sem justificação, apresentamos aqui uma demonstração formal.
Seja o historiador A com preocupações de objectividade que defende a tese T para um dado evento. A tese oposta designamos por ~T. A depara com o facto x desse evento. Podemos modelar a probabilidade de A declarar x como verdadeiro -- p(x;A) --, como a soma do grau de certeza que A possui de que x é objectivamente verdadeiro -- p(x) --, com um valor de viés v.
p(x) varia, como uma probabilidade, em [0,1]. Se x apoia a tese T, o viés tem um certo valor positivo, p. ex. v = 0,2; se x apoia ~T, tomemos v = 0. Portanto, o modelo efectivamente aumenta p(x;A) se x apoia a tese defendida por A (se a soma p(x)+v for superior a 1, tomamos 1).
Normalmente, o historiador A não fará uma declaração sobre a veracidade de x se p(x;A) não tiver um certo valor mínimo, digamos 0,6 (mais do que a probabilidade de moeda ao ar). Suponhamos que x apoia a tese T e p(x) = 0,45. Então p(x;A) = 0,65 e A declara x como verdadeiro, apesar do grau de certeza que A possui de que x é objectivamente verdadeiro ser inferior ao de moeda ao ar. Mas, se x apoia ~T, A exigirá que p(x) seja superior a 0,6 para declarar x como verdadeiro. (Há outros modelos possíveis e com conclusões semelhantes.)
As this result often appears without justification, we present here a formal demonstration.
Assume a historian A with concerns of objectivity that defends thesis T for a given event. The opposite thesis is denoted ~T. A considers the fact x of this event. We can model the probability of A declaring x as true -- p(x; A) --, as the sum of the degree of certainty that A has that x is objectively true -- p(x) --, with a bias value v.
p(x) varies, as a probability, in [0,1]. If x supports the thesis T, the bias has a certain positive value, e.g. v = 0.2; if x supports ~T, let us take v = 0. Therefore, the model effectively increases p(x; A) if x supports the thesis defended by A (in case the sum p(x) + v is greater than 1, we take 1).

Normally, the historian A will not make a statement about the veracity of x if p(x; A) does not have a certain minimum value, say 0.6 (more than the probability on coin). Suppose that x supports the thesis T and p(x) = 0.45. Then p(x; A) = 0.65 and A declares x as true, despite the fact that the degree of certainty that A has that x is objectively true is less than in coin tossing. However, if x supports ~T, A will require p(x) to be greater than 0.6 to declare x as being objectively true. (There are other possible models with similar conclusions.)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A deriva reaccionária dos conformadores ideológicos em Portugal

A continuada crise do capitalismo (que permanece globalmente, conforme inclusive o FMI, Davos, etc., reconhecem), o incremento das lutas populares e êxitos anti-imperialistas (Venezuela, Donbass, debacle do Daesh, etc.) têm vindo a preocupar o grande capital. As grandes corporações destinadas a conformar ideologicamente o povo – media e grandes casas editoriais, interligadas com o grande capital – reflectem, como é natural, tais preocupações.

No caso específico de Portugal há um motivo adicional de preocupação do grande capital: o aceitável desempenho geral do governo da ala esquerda do PS, sob acordo do BE e PCP. Já escrevemos sobre este aspecto. Para dar um exemplo recente, o aumento de IRC para as empresas com lucros acima dos 35 milhões de euros, que o governo se terá comprometido com o PCP vir a incluir no orçamento de estado para 2018, é obviamente motivo de “preocupação” do grande capital.

A democracia burguesa, controlada como é pelo grande capital, admite alguma “liberdade de informação” nas seguintes condições: o capitalismo não está em crise; o seu poder não é ameaçado; a sua mensagem (conformação) ideológica é dominante. Se tais condições são satisfeitas, essa liberdade é do interesse da democracia burguesa: cimenta a ilusão de que ela é o máximo possível de democracia. Se, pelo contrário, tais condições estão sob ameaça, o grande capital trata imediatamente de restringir essa liberdade (e outras), reforçando a desinformação, deformação e conformação em seu benefício.

É o que se passa em Portugal. Logo que foi empossado o governo de António Costa o grande capital (incluindo o seu representante, Cavaco Silva) mostrou o seu desagrado. O que lhe interessava era um governo PSD-CDS ou, ainda melhor, um governo de aliança central, envolvendo a tradicional ala direita do PS e permitindo reduzir ao mínimo a luta de classes.

Com consequência, assiste-se desde 2016 a um progressivo aumento do reaccionarismo dos media e das publicações nos escaparates das livrarias.

Comecemos por estas últimas:

Entramos numa grande livraria destinada a um público vasto, e que vemos? Para além de secções extensas sobre ficção, arte, religião e espiritualismo, uma secção reduzida de história e ainda mais reduzida sobre ciência. Encontramos montes de livros sobre anjos, papas, pastorinhos, Fátima e “Você pode falar com Deus”; biografias e análises variadas de Salazar, Caetano, cardeal Cerejeira e Pinto Balsemão; livros de economia tão atraentes como “Porque falham os negócios?”; montanhas de livros anti-soviéticos como o da filósofa alemã Hannah Arendt (“As Origens do Totalitarismo”), do historiador reaccionário Orlando Figes (“A Tragédia de Um Povo. A Revolução Russa”), do escritor fascista Sojenitsine (ressuscitado pelos nossos editores!), e do escritor trotskista George Orwell, cujos livros foram (pelo menos em parte) encomendados pelos serviços secretos britânicos a que pertenceu. Também encontramos inúmeros exemplares do livro “A Ameaça Vermelha” tendo na capa as efígies de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, e defendendo em subtítulo que Portugal está em 2017 pior que em 2015. Este também tem todo o aspecto de livro encomendado.

Quanto aos media e cingindo-nos apenas às questões nacionais:

De assinalar o espaço (nos jornais), tempo (TV) e ênfase constantemente dadas às declarações públicas do PSD e CDS contra o governo. Tais declarações são as notícias principais e merecem os grandes títulos de capa dos jornais. Exemplos recentes são a afirmação do PSD de que a declaração de Costa sobre os incêndios "é insulto à inteligência" dos portugueses, e a afirmação do CDS de que a sua moção de censura visa "dar voz" aos indignados com o governo. Pretende-se à viva força impor a ideia de que os incêndios são exclusiva culpa do governo, como se as políticas florestais dos anteriores governos nada tivessem a ver com isso.

Os media passaram também a apresentar toda e qualquer iniciativa irrelevante do capital (irrelevante do ponto de vista do bem-estar sustentável dos trabalhadores, mas relevante do ponto de vista de lucros) como algo de miraculoso, que irá salvar o país. É o caso, por exemplo, da abertura pela Altice de um segundo “call center” em Vieira do Minho (Vejam bem! Um novo “call center”! Maravilha, não é?). Altice que realizou o dia mundial do grupo em Lisboa e diz-se empenhada em investir em Portugal. Já são 1600 empregos em “call centers” da Altice, mas… disse assim um empresário da PT-Altice: "Há 3500 trabalhadores da PT que estão em casa (já estavam quando a Altice comprou a operadora portuguesa há dois anos e meio). Não temos trabalho para eles".

Nota-se também a intenção de amedrontar a pequena burguesia urbana (rendas de casa, impostos, etc.). Um exemplo é o comentário “O regresso da troika para trabalhadores independentes” de O Jornal Económico, metendo medo com o “enorme aumento de impostos” que vêm aí sobre as profissões liberais. O autor da notícia é um… advogado.

Quantos aos trabalhadores, os media são omissos. Greves, manifestações e lutas locais passam quase sempre ao lado dos jornais e TV. Quando são relatadas são sempre acompanhadas de chamadas de atenção reaccionárias de que a "greve prejudica a economia” ou de que a “greve prejudica os utentes". É raríssimo encontrar-se uma explicação correcta das razões de luta dos trabalhadores.

Um partido que sempre foi maltratado pelos media, mas cujo mau tratamento aumentou, é o PCP. A razão é simples. É o partido que encabeça o movimento dos trabalhadores e segue uma linha consequente nessa luta. Quaisquer medidas apresentadas pelo PCP, mesmo que comedidas, são sempre apresentadas pelos jornais como uma grande conspiração do PCP, do estilo "PCP força governo" ou "PCP manipula governo".

Presentemente, até noticiaristas passaram a botar, sempre que podem, a sua colherada comentarista contra o PCP. No passado mês de Abril, quando o PCP defendia a gestão pública da CGD e de outros bancos, um noticiarista do JN noticiou: “Jerónimo de Sousa defendeu a gestão pública,”; mas logo a seguir despiu o casaco de noticiarista e vestiu o de comentarista, afirmando “apesar de se saber que a gestão privada é melhor do que a pública”. Um douto noticiarista, não é? Este “apesar de se saber” é esmagador! Infelizmente, o douto noticiarista “esquece-se” de que a gestão pública só foi pior do que a gestão privada quando os gestores nomeados pelos poderes públicos, por incumbência ou iniciativa própria, arruinaram empresas públicas para justificar a “necessidade” de privatização a preços de saldo a favor do grande capital.
*   *   *

Como alternativa aos conformadores ideológicos dominantes, aqui deixamos uma sugestão: ler as notícias de https://www.abrilabril.pt/

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Acerca dos resultados das eleições autárquicas



No momento em que escrevemos, com praticamente todos os resultados das eleições autárquicas contabilizados, surge claramente uma constatação: a enorme transferência de votos do PSD, PCP e (em menor grau) do BE para o PS.
  
É certo que nas eleições autárquicas há muitos factores em jogo. Para além do nível de consciência política das massas, das classes trabalhadoras – factor predominante nas eleições legislativas --, há outros factores em jogo: desempenho técnico das anteriores vereações, clientelismo-caciquismos locais, etc. Destes últimos, o primeiro pode explicar a reeleição de Rui Moreira no Porto, e o segundo a insólita eleição do não menos insólito Isaltino Morais em Oeiras.
  
Nestas eleições houve vários casos locais; tal como os citados, contra o PS. Mas houve também um pano de fundo – aquilo que alguns jornalistas denominaram de «revoada» --a favor do PS, que alcançou resultados históricos, à custa do PSD, PCP e BE.
  
Porquê?
  
A razão está no brilharete económico que o PS tem vindo a alcançar. O brilharete tem os seus pontos escuros (de que falaremos noutro artigo) mas, no imediato – e as massas populares tendem a pensar no imediato a não ser em tempos de crise – as populações estão animadas com o governo da ala esquerda do PS.
  
Num artigo anterior, de Novembro de 2015, quando estava em discussão o acordo do PS com o BE e PCP, defendemos esse acordo («Os trabalhadores e as camadas mais pobres não compreenderiam, aliás, uma recusa do BE e do PCP a um acordo com o PS, impedindo uma melhoria das condições de vida. Foi, por isso, acertada a decisão de convergência do BE e PCP num acordo com o PS.»). Estávamos, contudo, enganados quando apontávamos razões pelas quais «o Acordo irá ter vida curta». Vários factores económicos globais têm contribuído para a durabilidade do acordo.
  
Num outro artigo sobre o momento político, de Janeiro de 2017, dizíamos ainda que a convergência do PS com o BE e PCP «Permitiram ainda -- e este aspecto não é de somenos importância -- difundir a ideia de que a austeridade não é «inevitável» desde que haja confluência das forças sociais ligadas ao mundo do trabalho que se oponham decididamente à agenda do capital.»
  
A derrocada do PSD nas autárquicas, com transferência de votos para o PS, tem precisamente a ver com este aspecto: o brilharete económico do PS com a demonstração de que a austeridade imposta pelo PSD não era inevitável; era sim mera submissão a interesses estrangeiros em correlação com interesses do grande capital nacional (em particular, o bancário). Apesar dos esforços de Passos Coelho, a imagem transmitida às massas populares foi a de uma mentira contra o povo. Permanecerá esta imagem de mentira do PSD nas mentes dos estratos sociais que tendem a ir a reboque dos barões do PSD, nomeadamente do pequeno campesinato do Centro e Norte? Veremos.
  
O CDS praticamente não sofreu perdas, por duas razões: alguma descolagem das teses do PSD no termo final da governação PSD/CDS; o efeito estabilizador das adesões ao catolicismo (padres, freiras, Opus Dei, etc.), da recente propaganda sobre Fátima e das pregações do clero.
  
Quanto às perdas do PCP e BE, a razão está em que, para as massas populares, a mensagem principal foi de que o brilharete económico se deveu exclusivamente ao PS. O PS ganhou uma nova imagem: a de um PS ressuscitado, defensor estrénuo do povo.
  
O facto de as medidas levadas a cabo pelo PS, o terem sido por vinculação e pressão do PCP e BE, ficou esquecido: Os media contribuíram para isso, mas não só. O PCP e o BE não conseguiram passar a mensagem de que o governo do PS não seria o do «milagre económico» e das benesses para o povo sem eles. 
  
Quanto ao BE, isso não nos surpreende, dada a sua postura baixamente reformista, de medidas a curto prazo, e de disposição para servir de muleta ao PS. 
  
Quanto ao PCP, é diferente. O PCP, para além de medidas a curto prazo como a do aumento do salário mínimo, defendeu medidas estruturais de fundo, importantes e necessárias, tais como a renegociação da dívida, a nacionalização da banca, e a saída do euro e da UE. Concentrou-se, porém, nestas eleições autárquicas e pelo que pudemos ver, exclusivamente nas questões técnicas locais. É uma área que, embora imprescindível nas autárquicas, tende a perder-se nas consciências das massas como mais uma enumeração de itens face a outras enumerações que parecem igualmente bons apresentadas por outros, Isto é, faltou uma mensagem de fundo: a de que no «local» tal como demonstrado no «global» é o PCP que tem verdadeiramente defendido os trabalhadores. E que o brilharete PS também se deveu ao PCP.
  
Parece-nos também ter faltado ao PCP mostrar claramente que não irá servir de muleta ao PS, esclarecer as limitações das actuais reformas PS e defender com afinco (e justificação acessível às grandes massas) a necessidade de renegociação da dívida, da nacionalização da banca, e da saída do euro e da UE. É óbvio que o que se irá passar a nível internacional (nomeadamente a aproximação de uma nova crise, para além de outros fenómenos de desagregação do capitalismo a que estamos a assistir) irá influir em tudo isto. Nas condições objectivas e subjectivas.
  
Para além das lutas dos trabalhadores, lutas populares, etc., as próximas eleições legislativas irão ter um papel importante no delinear de um novo rumo. Esperemos que o PCP, como vanguarda dos trabalhadores, tenha a arte política de influenciar substantivamente esse novo rumo.